"A arte existe para que a realidade não nos destrua." Friedrich Nietzsche



quinta-feira, 14 de junho de 2012

Dulcíssima em cada pétala



Para Maria Antoniêta, minha mãe.

Valsas dedilham acordes sobre um santuário em mármore. Púrpuras pétalas ecoam puerícias nas portas e janelas do sobrado quase tosco, não fossem persianas verde-jade resvalando suntuosas pelos recantos dísticos do verso. Discreta mobília observa surda o bailar da música. Ouvem-se cantigas de rodas a muito perdidas, esvaídas como pássaros distantes.  Seu olhar transmuta em aves solenes valsando acordes amarfinados no denso céu de minhas estrelas. Breve silêncio de pálpebras entoa tímido canções de amanhecer. Pálidos jacintos afloram celestes à luz da aurora estonteante do teu riso. Teu riso. Tempos de brisas e de retratos pálidos que se esvaem líquidos à flor dos olhos.
Místicas nuvens transferem à paisagem punhados orvalhados de pétalas e de perfumes. O dia parece claro. Teus semblantes traduzem os mistérios do medo, e da chuva. O borboletear do teu coração trepida em meus pulmões e todo o meu sangue persigna-se diante de ti. Tu’alma, ó, minh’alma!, configura-se em ti como tecidos e bordados no copular de tuas pétalas... Tuas pétalas, ó, flor, são jardins celestes, abertos em mim.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Olhares



A observar a dissonância furta-cor de tuas pálpebras
ó, rosa,
mil risos vertem nas pálpebras
pupilas
pequenas valsam acordes
quando serenas
discretas perfumam
no verso
tímidos tons
em tuas estrelas.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Poética da saudade



Murmúrios de aves sonâmbulas completavam a paisagem em decadentes mantras, e se iam. Era assim. Um carrossel com cavalos inertes, presos no tempo, como que uma espera. Balanços, mesas, brinquedos de cordas, o soldadinho de chumbo, tudo era silêncio. Passos empalidecidos pela proximidade da noite, compassados, ouviam-se, distantes.   Pequenos carvalhos amiudavam-se à flor dos olhos, como que um punhado de sonhos dispersos na claridade do dia. Mas a atmosfera me segredava algo bom. Querubins amarfinados velavam discretos um pequeno jardim de inverno, esquecido, repleto de presenças pétreas. A dança das horas sucumbia nervosa ao cinza desbotado da pálida neve, que fitava silente a simetria dos meus olhos, aqueles olhos...
Nuvens desbotadas riscavam na paisagem estranho desenho, como que pedaços de lugar nenhum contornando o vazio.  Tudo era vertigem. Tudo era cansaço. Neblinas curvavam-se como pálpebras cansadas ao horizonte dos mares. Ao longe, estranha brisa se desfazia em sândalos, como névoas invernais. Pétalas quebravam-se débeis, como cerâmicos rouxinóis, em cânticos. E a curva dos teus olhos delineava na paisagem ecos a muito perdidos (nos sonhos). E refletia presenças, e abria espaço.  


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dos acordes do mar



Ondas brumas
suspiros celestes n’alma
dos mares
carícias disformes
submersas quase
silentes
almas flutuantes se
beijam e balançam
em ritmos distantes
melodias espumam
na areia
e esfumam-se
em compassados mantras
turvos místicos
quebrados
se desfazem pálidos
como ondas.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Lírica a uma alma perfumada

  

                                                                                                   Para F. Ramos

Teu riso é uma canção em sol maior.
Alegre despertar de flores mudas
em dias de cinza.
Translúcido e compassado
teu riso é decorado de aromas e bordados.
Jacintos e acácias
pequenos
copos-de-leite cintilam à margem
dos dias
a espera humilde dos perfumes
sorrisos.

Teu olhar é um palácio de candura e mansidão
tem estrelas e cintila
assim como a canção.
Ondas e mar se despetalam brandos
em gestos simples,
e se curvam gratos
na breve curva do teu olhar
cuja textura e maciez
acariciam-lhes as margens solitárias
de pupila em pupila estrelas se desfazem
como num concerto de pálpebras
desertas
desertas e mudas.
É que teu olhar turva a maestria das estrelas.

Tua presença é como brisa de outono
branda, silente, morna
tal qual um querubim
quando respira
silente em jardins distantes
seus arcos são resquícios pálidos
de estranha civilização
de pássaros
e suas mãos, como nuvens e asas
todas pandas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A menina dos acordes perfumados


                                                                                   Para Matilde.
 Pequenas gotículas musicais
ecoam pueris
entre dedos sutis
num breve valsar de pétalas.

Acordes
despontam angélicos,
serenos, pálidos
como os semblantes da flor
em dias de transparentes
pétalas.

Colinas acordadas
despontam
e desvendam celestes
pétala por pétala
mistérios
em gestos musicais.

Compassos de nuvens
de asas e liras
violam indecisos
a fórmula da flor.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Ontologia de uma flor

                                       
                                                                 Para Margherita Galbiati

Há um silêncio no silêncio que
respira, e some.
No respiro transborda e
fecha-se, como pálpebras
como um discurso de pétalas
como pétalas fechadas
em (d)cores.

Configura-se em
contornos invisíveis
esplêndidos
desenhos pardos
místicos.

Santificar-se
é o desejo da flor.

Sublime é o suspiro
de suas pálpebras
pétalas
silentes pétalas
sábias.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sacro silêncio


  “Na insuficiência metafórica, a eminência poética traduz teus silêncios”.

À margem de uma espera
anêmonas acácias
lírios e carvalhos
flutuam em júbilo por sobre
nuvens, pássaros disformes
no azul invisível
de uma estrela que pousa
estala e irrompe
na alma de uma lágrima.

Perfumes místicos traduzem
o orvalho sagrado que apascenta
e descansa
na seda dos olhos
um cântico de rosas gerânios
matizes de cores mudas
enfeitam a paisagem celeste
em sublimes bordados
onde dedos traduzem estrelas

Ecos silentes trasladam
em êxtase
um discurso de faces.
Sublimadas córneas
fotografam silêncios
para fixar o instante.

Um (re)encontro de pétalas
anuncia a estação das cores
flores se rejubilam em pássaros
gritinhos afobados desforram pueris
os semblantes do céu
que sorriem
como crianças em dias de brinquedos.

Perfumes e magnólias contemplam
estarrecidos
as litanias
do silêncio.

sábado, 11 de junho de 2011

Devaneios lícitos



Em Campos Elíseos desponta
e paira
no fecho da pupila
perfumados fios
d’água.

Em tempos humanos
crisântemos traduziriam
suas estrelas
e pássaros fotógrafos guardariam
os semblantes
de suas almas.
Na ausência do ser,
alma é sustentáculo.

(Às vezes chove, às vezes minto)
sou toda ecos.

Sublime é a face do silêncio.
Em contemplação à própria face,
persigna-se.
A alma.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Dos discursos pétreos



Breve dormir egípcio
por séculos parados
cristalino é o sigilo do espelho
de um vulto em mármore

Fantasmas calcinados contemplam,
inertes, a silente sabedoria pétrea
de uma face a muito distante
perdida
transfigurada à golpes
de tempo.
Só o tempo contorna uma imagem bela.

Pósteros dirão que imagem não comunica.
Procede.

A vida é uma bailarina.
Até quem arde em gélida moldura
transpira no ir e vir
das belezas frias

E quando o compasso dos dias
em trejeitos solenes
contemplar o semblante das esculturas
com fios de tempo
a Gioconda transbordará em risos
cristalinos
como é o sigilo do espelho
de um vulto em mármore
por séculos parados
em breve dormir egípcio.

Sábios dirão que a imagem dói.
Dói a imagem.